O cenário da investigação científica na União Europeia está a atravessar uma transformação profunda e positiva, marcada por uma redução histórica no recurso a animais para fins laboratoriais. De acordo com os dados oficiais mais recentes, houve uma queda global superior a 8% na utilização de animais em procedimentos científicos, um indicador claro de que a ciência está a conseguir evoluir para modelos mais éticos e tecnológicos.
Os três países da UE que mais utilizaram animais em 2023 foram França (23,2%), Alemanha (18,4%) e Espanha (16,8%), à semelhança do que aconteceu no ano anterior. Em Portugal foram utilizados 77.255 animais em 2023, em comparação com 79.021 em 2022. Deste número, 57,5% foram roedores e 37,9% peixes, enquanto os ratos representaram 4,22%. Cães, gatos e primatas não foram utilizados como cobaias em Portugal em 2023.
De referir ainda que 30,5% dos animais foram utilizados para investigação translacional e aplicada (em comparação com 30,2% em 2022) . 15,8% das utilizações de animais destinaram-se a fins regulamentares (em comparação com 15,2% em 2022) e 6,5% destinaram-se à produção de rotina (em comparação com 6,3% em 2022).
Este avanço é impulsionado pela aplicação rigorosa do princípio dos 3Rs (Substituir, Reduzir e Refinar), que obriga os investigadores a procurar alternativas sempre que o conhecimento possa ser obtido sem o recurso a seres vivos. Portugal tem acompanhado esta tendência de forma exemplar, registando números que o colocam entre os países mais moderados e transparentes da Europa nesta matéria.
A maioria dos medicamentos de que dispomos atualmente tem origem na investigação com animais. Os animais são utilizados em conjunto com várias outras técnicas, tais como culturas celulares, estudos em seres humanos e modelos computacionais. Estes métodos são utilizados frequentemente em conjunto, para responder às questões biológicas fundamentais necessárias para compreender e tratar doenças. E, antes de se selecionar um modelo animal, os investigadores devem demonstrar que o conhecimento em questão não poderia ser adquirido através de métodos que não envolvam animais.
Esta mudança de paradigma deve-se, em grande parte, ao investimento crescente em métodos alternativos de ponta. Tecnologias como os "órgãos em chips", que mimetizam o funcionamento do corpo humano em miniatura, e modelos computacionais avançados de inteligência artificial, permitem hoje prever reações químicas e biológicas com uma precisão que, há poucos anos, era impensável.
Mais do que uma simples estatística, estes números refletem o compromisso da União Europeia em liderar uma ciência de excelência que não abdica da compaixão e do respeito pelo bem-estar animal. O objetivo a longo prazo é claro: caminhar para a substituição total de modelos animais à medida que a tecnologia nos oferece ferramentas mais eficazes e humanas.