Tudo o que se sabe sobre a morte do Orelha, o cão que chocou o Brasil
O que começou como um ataque a um cão tornou-se um debate nacional sobre violência juvenil, privilégio social e proteção legal de menores.
O caso do cão comunitário Orelha, brutalmente agredido e morto em janeiro de 2026 na Praia Brava, em Florianópolis, no sul do Brasil, continua a gerar indignação pública e a levantar questões sobre violência contra animais, responsabilidade penal de menores e alegadas tentativas de proteger os suspeitos.
Orelha era um cão sem raça definida, com cerca de 10 anos, conhecido e cuidado coletivamente por moradores e comerciantes da zona balnear, onde vivia há quase uma década. Considerado dócil e habituado ao contacto humano, tornou-se um símbolo da comunidade local antes de se tornar vítima de um dos casos de maus-tratos animais mais mediáticos dos últimos anos no país.
Segundo a investigação da Polícia Civil de Santa Catarina, o animal foi agredido na madrugada de 4 de janeiro de 2026 por um grupo de adolescentes. Orelha desapareceu e acabou encontrado dias depois numa zona de mata, em estado crítico, por uma moradora que o levou de urgência a uma clínica veterinária. O relatório veterinário revelou lesões extremamente graves, incluindo traumatismo craniano provocado por objeto contundente, hemorragias, dificuldades respiratórias e sinais de múltiplas agressões físicas.
Perante o sofrimento irreversível, os veterinários optaram pela eutanásia. A brutalidade do ataque desencadeou protestos em várias cidades brasileiras e mobilizou organizações de defesa animal, levando o caso a ganhar repercussão internacional.
Quem são os suspeitos?
As autoridades identificaram inicialmente quatro adolescentes como suspeitos de participação nas agressões. Por se tratarem de menores, o processo corre sob segredo de justiça e os nomes nunca foram divulgados oficialmente. Durante a investigação, um dos jovens deixou de ser considerado suspeito após análise de imagens de videovigilância que indicaram não estar presente no momento do crime, passando a testemunha.
A polícia executou buscas domiciliárias e apreendeu telemóveis e dispositivos electrónicos para perícia, analisando mais de mil horas de gravações de câmaras de segurança e depoimentos para reconstruir os acontecimentos.
Inicialmente, surgiram suspeitas de que o mesmo grupo teria tentado afogar outro cão da comunidade, conhecido como Caramelo. Contudo, após análise das provas, a polícia descartou a ligação direta dos adolescentes a esse episódio.
Esconderam ou não a identidade dos suspeitos?
Uma das maiores polémicas do caso surgiu quando fotografias e nomes alegadamente associados aos suspeitos começaram a circular nas redes sociais. A Justiça brasileira determinou então que plataformas digitais removessem conteúdos que permitissem identificar os adolescentes, incluindo nomes, imagens, moradas ou ligações familiares. A decisão baseou-se na Constituição brasileira e no Estatuto da Criança e do Adolescente, que protege a identidade de menores envolvidos em processos judiciais.
Assim, oficialmente, as identidades permanecem protegidas, embora tenham ocorrido fugas de informação e acusações online sem confirmação judicial.
O caso ganhou ainda novos contornos quando três adultos, familiares dos suspeitos, foram indiciados por alegadamente tentarem intimidar testemunhas e interferir na investigação policial. De acordo com as autoridades, um segurança que possuía imagens relevantes terá sido alvo de ameaças, configurando crime de coação no decurso do processo.
No Brasil, maus-tratos contra cães e gatos são crime punido com pena de dois a cinco anos de prisão, multa e proibição de guarda de animais, segundo a chamada Lei Sansão. No entanto, por serem menores, os suspeitos estão sujeitos a medidas socioeducativas e não a penas de prisão comuns.
A verdade é que a morte de Orelha reacendeu no Brasil discussões sobre violência juvenil, responsabilidade das famílias e endurecimento das leis de proteção animal. O caso continua em fase judicial e permanece sob forte atenção pública, enquanto associações exigem justiça e medidas preventivas para evitar novos episódios semelhantes.