Uma descoberta científica poderá mudar a forma como se olha para um dos animais mais emblemáticos da fauna portuguesa. Um estudo internacional concluiu que a Península Ibérica alberga, afinal, duas espécies distintas de coelho selvagem, e não apenas uma, como se pensava até agora. A investigação propõe que o chamado coelho-ibérico passe a ser oficialmente reconhecido como uma espécie independente, uma mudança que poderá ter um impacto importante na sua conservação.
O trabalho, divulgado pela unidade de investigação BIOPOLIS/CIBIO – Centro de Investigação em Biodiversidade e Recursos Genéticos, da Universidade do Porto, foi publicado na revista científica Biological Conservation. Os investigadores recorreram a análises genómicas, ecológicas e evolutivas para demonstrar que existem duas linhagens profundamente diferenciadas, separadas há cerca de dois milhões de anos e que permanecem reprodutivamente isoladas.
Atualmente, o coelho europeu (Oryctolagus cuniculus) está dividido em duas subespécies: o coelho-comum (O. c. cuniculus), presente sobretudo no nordeste da Península Ibérica e no sul de França, e o coelho-ibérico (O. c. algirus), cuja distribuição abrange Portugal e o sul de Espanha. Segundo os autores do estudo, as diferenças entre ambas são suficientemente significativas para justificar o reconhecimento de duas espécies distintas.
Esta alteração poderá ter consequências importantes para a conservação da natureza. O coelho-ibérico tem sofrido um declínio acentuado nas últimas décadas devido à perda de habitat, às doenças, às alterações da paisagem e à pressão humana. Ao ser reconhecido como uma espécie própria, poderá beneficiar de uma avaliação independente do seu estado de conservação e de medidas de proteção mais direcionadas.
A importância do coelho selvagem vai muito além da espécie em si. Trata-se de um dos principais pilares dos ecossistemas mediterrânicos, servindo de alimento a dezenas de predadores, entre eles o lince-ibérico e a águia-imperial-ibérica, duas espécies emblemáticas cuja recuperação depende, em grande parte, da abundância deste pequeno mamífero. A diminuição das suas populações tem sido apontada como uma das principais ameaças à biodiversidade da região.
Os investigadores defendem, por isso, uma reclassificação urgente do coelho-ibérico, considerando que reconhecer a sua identidade biológica é um passo essencial para evitar novos declínios populacionais. Segundo a equipa científica, proteger uma espécie começa por conhecê-la corretamente. Se a proposta vier a ser aceite pela comunidade científica, Portugal poderá passar a ser o principal refúgio de uma espécie única no mundo.