A perda de um animal de companhia é, para muitas pessoas, comparável à perda de um membro da família. Em Portugal, investigadores em ciências sociais e comportamento animal têm vindo a destacar que este luto é real, profundo e muitas vezes desvalorizado socialmente, apesar do impacto emocional significativo que provoca nas pessoas que vivem com animais de estimação.
Mas a questão que se coloca com cada vez mais frequência em consultórios veterinários e em estudos de comportamento animal é outra: o que acontece aos animais que ficam? Segundo investigadores em comportamento animal, cães e gatos podem apresentar alterações comportamentais após a morte de um outro animal com quem conviviam. Estas mudanças incluem alterações no sono, no apetite, menor interesse por brincadeiras e procura constante pelo companheiro ausente.
Estes sinais não devem ser automaticamente interpretados como 'luto' no sentido humano da palavra, mas sim como uma resposta à quebra de rotinas e vínculos sociais estabelecidos dentro da casa.
Em vários estudos sobre comportamento animal, observa-se que cães podem procurar locais onde o outro animal costumava estar, cheirar objetos ou permanecer mais tempo junto do espaço onde o companheiro descansava. Estas respostas podem durar dias ou semanas, dependendo da ligação entre os animais e da estrutura da casa.
Já os gatos são animais muito territoriais e sensíveis ao ambiente, e qualquer alteração no mapa social da casa pode gerar stress. Alguns gatos podem andar pela casa à procura do outro animal, especialmente nos primeiros dias. Podem ainda tornar-se mais dependentes do tutor, ter mudanças no apetite e miar mais frequentemente do que o normal.
Como pode ajudar os seus animais a lidarem com a perda?
É muito importante manter rotinas estáveis após uma perda. Alimentação, passeios e horários consistentes ajudam a reduzir o stress do animal sobrevivente, que pode ficar confuso perante a ausência súbita de um companheiro com quem partilhava o dia-a-dia.
Há também uma dimensão emocional que não deve ser ignorada. Embora não haja consenso científico sobre se os animais compreende a morte, há evidência de que são capazes de reconhecer a ausência prolongada de um indivíduo familiar e reagir a essa mudança com comportamentos de procura e adaptação. Em alguns casos, a introdução de um novo animal demasiado cedo pode gerar confusão adicional, tanto nos humanos como no animal sobrevivente. Por isso, os especialistas recomendam uma abordagem cautelosa e adaptada a cada situação, sem pressa em 'substituir' o animal perdido.
A perda de um animal não é apenas uma ausência física, é também uma reorganização emocional dentro da casa. E, nesse processo, os animais que ficam podem ser tão sensíveis à mudança como os humanos que os rodeiam. Por isso, se notar sinais persistentes de apatia, ansiedade ou alteração de hábitos alimentares, procure apoio veterinário ou comportamental para ajudar o seu patudo.