O caso do cão Orelha, brutalmente agredido e morto na Praia Brava, em Florianópolis (Brasil), deixou de ser apenas uma tragédia local para se tornar um símbolo global contra os maus-tratos a animais. Orelha, um cão comunitário de cerca de 10 anos, era cuidado há anos por moradores e comerciantes da zona e acabou por ser vítima de agressões atribuídas a quatro adolescentes, o que levou à sua eutanásia numa clínica veterinária devido à gravidade dos ferimentos, incluindo traumatismo craniano.
A comoção rapidamente se traduziu em ação: petições online somaram centenas de milhares de assinaturas a exigir justiça e penas mais duras para a crueldade contra animais, e várias figuras públicas e influenciadores juntaram-se ao coro de indignação. O caso teve forte eco mediático, passando de "história local" a tema de debate em todo o Brasil e em outros países lusófonos, onde foi amplamente noticiado como exemplo extremo de violência contra um animal comunitário.
As autoridades responderam com uma investigação intensiva. A Polícia Civil de Santa Catarina identificou quatro adolescentes como suspeitos das agressões, e familiares destes acabaram também indiciados por alegada coação de testemunhas.
No plano político, o caso chegou ao Senado Federal brasileiro, onde vários senadores exigiram punições mais severas para maus-tratos a animais. Os senadores Humberto Costa e Fabiano Contarato defendem o endurecimento da legislação, lembrando que os animais são seres emocionais e que a cultura de impunidade precisa de acabar. Em paralelo, uma proposta legislativa apresentada pelo deputado Eduardo da Fonte, inspirada diretamente no caso Orelha, pretende alterar o Estatuto da Criança e do Adolescente para permitir medidas socioeducativas mais duras (como a internação) quando adolescentes praticam violência extrema contra animais.
A comoção também motivou respostas concretas a nível local. A Prefeitura de Florianópolis anunciou que o primeiro Hospital Veterinário Municipal da cidade vai chamar-se "Hospital Veterinário Municipal Cão Orelha", em homenagem ao animal e como forma de transformar a dor em política pública permanente de bem-estar animal.
Hoje, mais do que a história de um cão querido por uma comunidade, Orelha tornou-se um símbolo internacional de que a violência contra animais já não passa despercebida: gera mobilização massiva, mexe com tribunais, legisladores e governos, cruza fronteiras via redes sociais e deixa claro que a opinião pública está menos tolerante a qualquer forma de crueldade. A investigação segue em curso em Santa Catarina, mas o impacto do caso já se faz sentir muito para lá da praia onde Orelha viveu.