É um clássico da primavera. Abre-se a janela e, de repente, há pequenos ramos acumulados no canto da varanda, atrás do estendal ou junto do ar condicionado. Poucos dias depois, chegam os chilreios e percebe-se que há um ninho em construção. Em Portugal, espécies como pombos, andorinhas, pardais ou melros adaptaram-se facilmente às cidades e utilizam edifícios, varandas e janelas como locais seguros para nidificar. Mas quando isso acontece tão perto de casa, surgem dúvidas: deve retirar-se o ninho? É perigoso? E como agir sem prejudicar os animais?
Segundo o Instituto da Conservação da Natureza e das Florestas (ICNF), a maioria das aves selvagens está protegida por lei em Portugal, especialmente durante o período de reprodução. Isso significa que destruir ninhos ativos, com ovos ou crias, pode constituir uma infração ambiental. Se o ninho já estiver ocupado, o ideal é evitar interferências até que as crias abandonem naturalmente o local. Na maioria das espécies urbanas, este processo demora apenas algumas semanas.
Mas nem sempre a convivência é fácil. Sujidade, penas, fezes e ruído estão entre as queixas mais comuns. Nestes casos, os especialistas recomendam medidas preventivas, mas apenas fora da época de reprodução. A Sociedade Portuguesa para o Estudo das Aves (SPEA) aconselha, por exemplo, a instalar redes ou barreiras físicas antes da primavera, fechar acessos a zonas técnicas ou caixas de estores, evitar deixar comida disponível em varanda e utilizar soluções dissuasoras não agressivas. O uso de cola, armadilhas, substâncias tóxicas ou métodos que possam ferir as aves não é recomendado e, em alguns casos, pode ser ilegal.
No caso específico dos pombos, frequentemente associados a ambientes urbanos, a Direção-Geral da Saúde recorda que o contacto direto com fezes acumuladas deve ser evitado, sobretudo em pessoas com problemas respiratórios ou imunidade reduzida. A limpeza deve ser feita com proteção adequada e, idealmente, humedecendo previamente a zona para evitar partículas no ar. Se existir um animal ferido, uma cria caída do ninho ou uma situação de risco, o mais indicado é contactar o SEPNA/GNR ou um centro de recuperação de fauna selvagem autorizado pelo ICNF.
Mas atenção, há um lado positivo nesta convivência. A presença de aves nas cidades é considerada um indicador importante de biodiversidade urbana e equilíbrio ambiental. Muitas espécies ajudam no controlo de insetos e contribuem para ecossistemas mais saudáveis.