Um grupo de investigadores da Universidade de Córdoba alerta que os vídeos de animais criados por inteligência artificial estão a moldar a perceção do público sobre a vida selvagem e podem até prejudicar os esforços de conservação das espécies. As conclusões foram recentemente publicadas na revista científica Conservation Biology.
Segundo os autores, a qualidade das ferramentas de Inteligência Artificial (IA) generativa evoluiu ao ponto de ser difícil distinguir imagens reais de conteúdos completamente inventados. O resultado é uma avalanche de vídeos emocionantes, engraçados ou comoventes que acumulam milhões de visualizações, mas que nem sempre representam o comportamento verdadeiro dos animais.
Um dos exemplos destacados é um vídeo viral em que diferentes espécies de aves aparecem a proteger as crias da chuva, acompanhado de mensagens sobre o "amor incondicional das mães". Parece bonito, mas a realidade é bem mais interessante: em cerca de 90% das espécies de aves, os machos também participam nos cuidados parentais. Já muitos répteis, anfíbios e peixes nem sequer prestam cuidados às crias.
Os investigadores referem ainda vídeos que mostram amizades improváveis entre predadores e presas ou animais selvagens extremamente dóceis com seres humanos. Apesar de parecerem inofensivos, estes conteúdos podem transmitir uma falsa sensação de segurança e levar algumas pessoas a subestimar os riscos associados ao contacto com animais selvagens. Em alguns casos, podem até incentivar a procura de animais exóticos como animais de estimação, alimentando o comércio ilegal de espécies.
Mas os problemas não ficam pelas redes sociais. Outro alerta, publicado na revista Nature Ecology & Evolution, chama à atenção para o impacto que imagens e vídeos editados com IA podem ter na chamada ciência cidadã, nomeadamente através de plataformas onde voluntários registam observações da natureza. Pequenas alterações feitas por ferramentas de edição podem modificar características importantes de uma espécie e conduzir a identificações erradas, comprometendo dados utilizados por investigadores para acompanhar a distribuição e o estado das populações selvagens.
Os cientistas recordam, por exemplo, um caso em que uma fotografia alterada por uma ferramenta de IA levou uma ave comum a parecer uma espécie que nunca tinha sido registada no Brasil. O autor da imagem não pretendia enganar ninguém: queria apenas melhorar a fotografia. Ainda assim, o resultado acabou por gerar um erro científico que a equipa conseguiu reproduzir de forma independente.
A boa notícia é que a inteligência artificial também pode ser uma aliada da conservação. Atualmente já ajuda investigadores a identificar espécies em armadilhas fotográficas, monitorizar populações e analisar enormes quantidades de dados recolhidos na natureza. O desafio passa por distinguir as ferramentas utilizadas para apoiar a ciência dos conteúdos criados apenas para entretenimento.