1em cada 5 adultos sofre mais com a morte do animal de estimação do que com a de uma pessoa, indica novo estudo
Família

Um em cada cinco adultos sofre mais com a morte do animal de estimação do que com a de uma pessoa

Um estudo publicado na revista PLOS ONE, com análise de quase mil adultos britânicos, concluiu que a morte de um animal de estimação pode desencadear uma Perturbação de Luto Prolongado.


Perder um cão ou um gato pode doer tanto como perder uma pessoa próxima e, em alguns casos, deixar marcas clínicas de luto prolongado. É esta a conclusão de um novo estudo publicado na revista científica PLOS ONE, que mostra que a morte de um animal de estimação pode desencadear Perturbação de Luto Prolongado (PGD), uma condição já reconhecida pela OMS e pela Associação Americana de Psiquiatria, mas que, por definição oficial, só pode ser diagnosticada após a morte de um ser humano.

A investigação, conduzida pelo psicólogo Philip Hyland, da Maynooth University, na Irlanda, analisou uma amostra representativa de 975 adultos no Reino Unido. Cerca de um terço (32,6%) tinha vivido a morte de um animal de estimação querido e, destes, 93% também já tinham perdido uma pessoa próxima. Quando foram convidados a indicar qual dessas perdas tinha sido mais dolorosa, mais de um em cada cinco (21%) escolheu a morte do animal ou seja, para muitas pessoas, a perda do cão ou do gato foi mais devastadora do que a morte de um familiar ou amigo.

Os resultados mostram ainda que 7,5% das pessoas enlutadas pela morte do seu pet preenchiam critérios de Perturbação de Luto Prolongado, uma taxa muito semelhante à observada após certos tipos de luto humano, como a perda de um amigo próximo ou de outros familiares, como avós, tios e primos. No total da amostra, 8,6% dos participantes tinham PGD, e a morte de um animal de estimação foi responsável por cerca de 8,1% de todos os casos, fazendo desta uma das formas de perda que mais contribuem, em número absoluto, para este problema de saúde mental, logo a seguir à morte de um dos pais.

Do ponto de vista clínico, os sintomas observados após a morte de um animal eram indistinguíveis dos que surgem após a morte de uma pessoa: saudade intensa e dolorosa, preocupação constante com o falecido, dificuldade em aceitar a perda, tristeza profunda, culpa ou vazio, e impacto claro no funcionamento diário. Análises estatísticas mostraram que as mesmas escalas de avaliação funcionam da mesma forma em lutos por humanos e por animais, contrariando a ideia de que o luto por animais seria, por natureza, mais leve.

Hyland sublinha que estas conclusões colidem com a atual definição de PGD nas classificações internacionais, que excluem explicitamente a possibilidade de diagnóstico após a morte de um animal, mesmo quando a pessoa cumpre todos os critérios de sintomas e de sofrimento. Para o autor, à luz dos dados, esta exclusão é cientificamente injustificável e contribui para aquilo a que chama "luto desautorizado": muitas pessoas sentem vergonha ou isolamento por sofrer tanto com a morte do animal, precisamente porque a sociedade tende a desvalorizar esse tipo de dor.

O estudo não implica que qualquer tristeza pela perda de um cão ou gato seja doença, já que a maioria das pessoas não desenvolve PGD. Porém chama a atenção de profissionais de saúde e do público para uma realidade simples: para quem vê o animal como família, a perda pode ser devastadora e merece o mesmo respeito, validação e acesso a ajuda que qualquer outro luto importante.